21.10.2020 | Movimento Brasil Digital (Por Marcelo Gimenes Vieira)

5G vai gerar US$ 22,5 bi em oportunidades no Brasil até 2024

Estudo divulgado pelo Movimento Brasil Digital estima oportunidades e investimentos para viabilizar a quinta geração de redes móveis no País. E faz um alerta: governo precisa acelerar leilão para não ficarmos para trás

Se durante o desenvolvimento do 4G no mercado brasileiro o consumidor final foi o centro das estratégias das operadoras, no 5G os casos de uso corporativos serão os protagonistas, ou seja, o B2B será o grande impulsionador das redes móveis de quinta geração. É o que revela o estudo A vez da 5ª geração!, feito pelo IDC sob encomenda para o Movimento Brasil Digital (MBD) e apresentado nesta terça-feira (20) na live 5G: oportunidades e desafios.

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O IDC estima que o impulso dado pelo 5G a tecnologias associadas – incluindo robótica, segurança da informação, nuvem pública, internet das coisas (IoT), Big Data e Analytics, realidade aumentada e virtual (AR/VR) e inteligência artificial – atingirá apenas no Brasil cerca de US$ 22,5 bilhões em receitas no período entre 2020 e 2024. Isso significa um crescimento anual médio no período de impressionantes 179%.

“Estamos frente a um grande enabler, um facilitador que trará muitas oportunidades para o mercado local”, ressaltou Luciano Saboia, gerente de pesquisa e consultoria para telecomunicações do IDC Brasil, durante a live do MDB. “Todas dependem da realização dos leilões de espectro no primeiro semestre do próximo ano e implementações comerciais ao longo de 2021.”

Após realizado o leilão de espectro pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), e para que todas essas oportunidades de negócio se concretizem, é necessário que operadoras e provedores de telecomunicações invistam na construção da infraestrutura. O IDC estima que, no Brasil, serão US$ 2,5 bilhões gastos entre 2019 e 2024, principalmente por operadoras e provedores de rede, em equipamentos de rádio (RAN), de core de rede, virtualização (NFV) e backhaul (roteamento e fibra).

“Lembrando que teremos um throughput, uma capacidade de tráfego de dados em interface aérea, que jamais existiu [antes], então será necessária muita conectividade para suportar essa rede que virá”, lembrou Saboia.

Para o analista do IDC, no entanto, o único modo de aproveitar as incríveis velocidades e baixíssima latência do 5G é a colaboração entre os atores envolvidos, particularmente no B2B. Isso porque diferentes empresas ou verticais de negócio terão diferentes necessidades e projetos, demandando uma combinação de recursos consumidos variada e intensa.

Para Saboia, isso significa uma colaboração horizontal entre operadoras, fabricantes de dispositivos e produtores de softwares e apps, integradores de sistemas, especialistas em verticais de negócio e provedores de equipamentos de rede. “Tudo isso funcionando em conjunto e objetivando a adoção da tecnologia em use cases”, reiterou o analista. “Teremos elevada necessidade de parceria entre vários fornecedores para que os máximos benefícios possam acontecer concretamente.”

Para ele, o 5G proporciona a adoção de inúmeras tecnologias associadas de forma mais abrangente para os consumidores finais e, sobretudo, empresas. Cada aplicação impulsiona (e é impulsionada por) outras tecnologias que se encaixam em verticais de negócios. Smart grids em utilities, por exemplo, ou telemedicina na saúde, realidade aumentada na educação e automação na indústria.

 

Leilão, e rápido

Para que tudo isso aconteça, é necessário que o governo brasileiro destrave o processo de leilão das frequências que serão utilizadas pelo 5G. Previsto para acontecer em 2020, o certame foi adiado para o início de 2021 e está envolto em disputas – inclusive geoglobais.

Enquanto isso o Brasil vai ficando para trás. Desde 2018 há redes comerciais de 5G ativas em países como Suíça, Coreia do Sul e EUA, entre outros. No Brasil, algumas redes do tipo DSS (compartilhamento dinâmico de espectro, em tradução livre da sigla em inglês) operam em capitais, aproveitando frequências já leiloadas para o 4G para “experimentar” novos recursos e ampliar a velocidade. Mas ainda não entramos na quinta geração de redes móveis e é preciso correr.

“Certamente é preciso acelerar”, reiterou Luciano Saboia, lembrando que o leilão é só o primeiro passo, e que os governos brasileiros precisam encontrar formas de apoiar os aportes necessários para a criação das redes 5G. “Estímulos do governo, aspectos da economia local, câmbio, são muito sensíveis para essa aceleração porque estamos falando de investimentos e retorno.”

Desafios regulatórios, legais e tributários do setor de telecomunicações se tornam ainda mais relevantes com o 5G. Enquanto isso os provedores regionais de internet (os ISPs), responsáveis por boa parte das redes de fibra óptica que “iluminam” cidades do interior do país, querem participar dos leilões e tem potencial para se tornarem grandes vetores do 5G em regiões afastadas das capitais, e também precisarão de incentivos.

 

Miríade de oportunidades

Representantes de três grandes players que se aproveitarão das oportunidades trazidas pelo 5G participaram de um debate após a apresentação do estudo do IDC. Ana Paula Assis, general manager da IBM para a América Latina, concorda que a demanda por soluções que impulsionem a transformação digital das organizações será ainda maior com o 5G, após já ter acelerado “tremendamente” com a pandemia.

“Quando falamos em 5G, a primeira coisa que vem à cabeça é todo investimento que vai ter que ser feito para mudar as infraestruturas das redes, equipamentos, dispositivos, antenas etc. E não necessariamente isso tudo tem que acontecer em um primeiro momento”, ressaltou a executiva. “Quando olhamos para as tecnologias de software criadas para fornecedores que aderem a um modelo aberto de conectividade, é aí que vamos conseguir acelerar a implantação sem incorrer nos grandes custos esperados.”

A IBM aposta em uma solução aberta para automatizar e orquestrar redes virtuais e em contêineres. Isso permite gerenciar as cargas em plataformas em nuvem, o que acelera essa adoção. Na Índia, a Vodafone conseguiu reduzir em 85% os custos de investimento (capex) e 50% os operacionais (opex), segundo a executiva, a partir desta abordagem.

Laercio Albuquerque, presidente da Cisco do Brasil, ressaltou o potencial do 5G para impulsionar aplicações corporativas de IoT. Se já são milhões de devices conectados hoje (segundo o executivo, 70% das empresas brasileira já tem algum projeto, mesmo que pequeno), em três anos serão 50 bilhões, tanto em ambientes internos como externos.

“Com uma velocidade mais de cem vezes maior, vamos trazer para a comunicação de device para device uma velocidade só conhecida dentro de casa”, ponderou, citando carros conectados nas ruas, drones e tratores nos campos, entre outras aplicações possíveis. “Essas coisas serão possibilitadas de verdade por conta da latência. Não se pode ter problema de conexão em um carro conectado.”

Parte das aplicações que se tornarão possíveis com o 5G sequer existem, lembrou Albuquerque, e para serem criadas é preciso uma infraestrutura que suporte o tráfego projetado de dados.

“Nós enxergamos o 5G como principal tecnologia para o desenvolvimento econômico dos países durante a próxima década. Enxergar um país como o Brasil em 10 anos sem o 5G seria o mesmo que olhar para o Brasil de hoje sem portos, aeroportos e rodovias”, refletiu Marcos Scheffer, vice-presidente de redes para o sul da América Latina da Ericsson. “Um país sem 5G não tem competitividade e capacidade de atrair investimentos.”

Parte desse desenvolvimento se reflete diretamente na economia. A Ericsson calcula que 205 mil empregos diretos serão gerados pela implantação das redes 5G no Brasil, e R$ 70 bilhões em impostos e contribuições recolhidas até 2025. Isso significa um incremento do produto interno bruto (PIB) nacional, em dez anos, de 2,4%.

“O 5G para nós não é só uma ferramenta de tecnologia, mas de desenvolvimento econômico para o país”, disse. Há ainda os benefícios diretos para os usuários, seja no ganho de velocidade de acesso a vídeos de alta definição, recursos de realidade aumentada e virtual, ou mesmo games. Scheffer também acredita que o 5G vai potencializar a entrega de banda larga fixa residencial em locais em que a rede de fibra óptica não chega.

Assista o debate completo no canal do Movimento Brasil Digital: