26.11.2020 | Movimento Brasil Digital (Por Marcelo Gimenes Vieira)

Líder digital pós-pandemia é humano e socialmente responsável

Novo perfil de lideranças foi tema da live ‘Liderança: digitalização reforça novos perfis’, promovido pelo MBD nesta terça. Pandemia aumentou os desafios

Ciclos cada vez mais rápidos para o desenvolvimento de produtos, serviços e negócios digitais; modelo de trabalho altamente colaborativo (e cada vez menos competitivo), descentralizado e horizontal; agenda de responsabilidade social e ambiental (ESG) mais e mais presente. Somados à velocidade e ao senso de urgência trazidos pela pandemia temos os maiores desafios para as lideranças das organizações que se digitalizam.

 

Essas são algumas das conclusões a que chegaram os participantes do debate “Liderança: digitalização reforça novos perfis”, promovido pelo Movimento Brasil Digital nesta terça-feira (24), dentro da série de lives Brasil Digital Talks. Participaram Claudia Meira, diretora de TI da Gol; Lidia Abdalla, CEO do Grupo Sabin; e Jorge Maluf, senior partner da Korn Ferry; com mediação do diretor executivo do MBD, Vitor Cavalcanti. A íntegra do evento está disponível no canal do MBD no YouTube.

 

“A gente já vinha passando por um grande desafio nas empresas relacionados à transformação digital, que traz sempre questionamentos sobre modelos de negócios, as disrupções que vem pela frente e como enfrentar esses movimentos”, ponderou Maluf, ressaltando que as empresas precisarão estar preparadas para reagir rapidamente ao inesperado. “Vale para a pandemia que pegou todo mundo, mas cada empresa tem uma história recente de uma crise importante que viveu e teve que reagir rapidamente.”

 

O executivo da Korn Ferry também destacou a importância dos novos modelos de colaboração, que compreendem ecossistemas com vários players da cadeia – o que traz fortes implicações na forma de pensar e se posicionar dos líderes, reduzindo a competição entre eles e aumentando a colaboração. Afinal, um “ecossistema, por natureza, se caracteriza pelo equilíbrio”.

 

Por último vem o ESG (sigla do inglês para Governança Ambiental, Social e Corporativa). Cada vez mais as empresas são cobradas a construir iniciativas que considerem questões ambientais e sociais em um mundo cada vez mais engajado e preocupado com o posicionamento das marcas que consome. Por isso o tema precisa estar na agenda das lideranças, dos conselhos e dos acionistas das organizações.

 

“Eu diria que muitas empresas ainda estão fazendo muito mais esse movimento pela dor do que pelo amor”, ressaltou o especialista. Para que os líderes tomem para si esses valores e os transformem em propósito de fato passa, em parte, por assumir que líderes também são humanos, ou seja, são vulneráveis, e entender que a disrupção é uma oportunidade de reinvenção que vai além de resultados imediatos.

 

“Às vezes o olhar de curto prazo está voltado para o resultado financeiro e econômico, mas temas de natureza ambiental e social são processos de transformação mais longos. Esse balanceamento de curso e longo prazo é uma arte”, disse. “Não é pouca nem simples a carga de transformação pessoal exigida dos novos líderes.”

 

Linha de frente

Setor extremamente afetado pela pandemia, as lideranças da saúde também tiveram que enfrentar o impulso da transformação digital. No Grupo Sabin, especializado em medicina diagnóstica e, portanto, no “olho do furacão”, 80% dos funcionários mantiveram atividades presenciais. Isso não significa que a inovação não foi impulsionada pela crise sanitária.

“Em quatro meses fizemos o que planejamos para quatro anos. Foi uma necessidade imposta pela demanda do cliente”, salientou Abdalla. “Como empresa do setor de saúde, nosso propósito foi colocado à prova.”

 

A executiva lembrou os momentos difíceis que marcaram o início da pandemia, seja em termos de alta demanda como de protocolos para o atendimento. Uso de máscaras, falta de EPIs, pressão por mais testes de COVID e, ao mesmo tempo, competição global pelos reagentes necessários. Foram dificuldades que exigiram das lideranças e profissionais agilidade, inclusive na TI.

 

“Ao mesmo tempo em que tínhamos uma grande demanda no serviço, as pessoas estavam em casa com medo de sair. Então tivemos que quintuplicar nossa capacidade de call center, de atendimento e coleta domiciliar para nossos clientes. E isso passou totalmente por digitalização, pela interface com o cliente no digital”, contou.

 

Para a executiva, esse movimento é muito importante em um setor em que o atendimento físico é regra e iniciativas de teleatendimento eram comumente rechaçadas por insegurança e falta de cultura. Mas a pandemia mudou essa relação, e atualmente todos os processos do Sabin passam pelo digital – o que tem exigido investimentos e fortalecimento das competências de funcionários e lideranças.

 

Disrupção cultural

Para Claudia Meira, da Gol, a transformação da cultura das empresas com a pandemia também é intensa. O que era analógico se tornou digital em quase todas (ou todas) as áreas das companhias de todos os setores, e a tecnologia passou a ser fundamental para as estratégias de negócio. Muitas adotando o conceito de “IT based”, ou seja, se tornando empresas de tecnologia de fato, independente do ramo em que atuem. O objetivo central é sempre oferecer melhores serviços para clientes internos e externos.

 

“Eu me lembro quando nós [da TI] éramos tomadores de pedidos. Hoje está tudo diferente, as áreas estão misturadas e estamos atuamos de forma mais transversal, com equipes multidisciplinares, no sentido de sermos mais ágeis e atendermos eficiente o que é esperado”, ponderou a executiva, ressaltando que a mudança de cultura tem conectado mais as áreas de negócio e tecnologia.

 

Isso traz, claro, inúmeros desafios para as lideranças, sejam de cultura corporativa ou social. E para isso o “líder 5.0” precisa ter humildade, empatia, ter escuta ativa e promover diversidade, criando assim um ambiente colaborativo – o que significa envolver atores internos e externos, startups e, às vezes, até concorrentes.

 

“A colaboração também é para fora, não só dentro. O papel do líder também é enxergar oportunidades na sociedade, promover capacitação e estabelecer parcerias. Temos que buscar ajuda em universidades, governo… incentivar a capacitação e a inserção de jovens em áreas que talvez tenhamos maior necessidade para evolução”, disse.