11.12.2020 | Movimento Brasil Digital (Por Marcelo Gimenes Vieira)

Mundo pós-pandemia: o que esperar (e enfrentar) em 2021?

Debate promovido pelo Movimento Brasil Digital identificou otimismo com a transformação digital acelerada em 2020, mas desafios do Brasil para aproveitar bom momento ainda são muitos

Nem mesmo o mais certeiro dos analistas teria sido capaz de prever 2020. Uma pandemia de escala global, que tanto sofrimento causou a milhões de pessoas e fez economias do mundo todo patinarem. Para o setor de TI, foi um período que provou a capacidade adaptativa de tecnologias já estabelecidas e acelerou a transformação digital a um ritmo nunca visto. Mas e agora, com a vacina se avizinhando e a expectativa de um retorno ao “normal”, o podemos esperar para o próximo ano?

Para os convidados do Movimento Brasil Digital para o debate “Competitividade digital: o que esperar de 2021?” – que pode ser visto na íntegra no canal do MBD no YouTube –, as  tecnologias digitais estabelecidas passarão a influenciar estratégias e o crescimento das empresas no próximo ano. 5G, Big Data, IoT e Inteligência Artificial dominarão o cenário e trarão desafios não só para as organizações, mas também para o Brasil, que precisa fomentar as bases para manter-se competitivo nesse novo mundo que emerge.

Participaram do debate promovido nesta quinta-feira (10) Carlos Arruda, professor de inovação e competitividade da Fundação Dom Cabral; Luiz Sergio Vieira, CEO da EY Brasil; e Alexandre Barcelos, vice-presidente de finanças e tecnologia da informação da ArcelorMittal Brasil. Vitor Cavalcanti, diretor executivo do Movimento Brasil Digital, mediou o painel.

“O Brasil tem apresentado uma posição positiva no item que chamamos de prontidão para o futuro, que tem a agilidade para os negócios, a atitude adaptativa e a integração com TI como pilares. E acreditamos que o país vai avançar muito nesse quesito”, ponderou Arruda, que coordenou a coleta de dados nacionais para o Ranking Mundial de Competitividade Digital de 2020 do International Institute for Management Development, o IMD. “Estamos tanto do ponto de vista privado como do público orientados a adotar tecnologias que gerem respostas e ganhos e benefícios no médio e longo prazo.”

No entanto há desafios e preocupações, segundo o professor. Entre os 63 países analisados pelo estudo, o Brasil ficou na posição 62 no indicador chamado talentos. Isso significa que temos uma dificuldade para formar toda a mão de obra necessária para atender o pujante mercado brasileiro de tecnologia, muito embora empresas e entidades tenham fomentado iniciativas – o próprio MDB lançou recentemente o Eu Capacito.

Para Barcelos, o grande alento é saber que os piores efeitos trazidos pela pandemia em boa parte já passaram. O “túnel escuro sem luz no fim” em que o país entrou desde março começa a terminar, com as empresas tendo aprendido a lidar com imprevistos principalmente usando tecnologia. A própria ArcelorMittal, por exemplo, teve que rapidamente colocar funcionários administrativos em teletrabalho, o que significa colocar três mil pessoas em home office em poucos dias.

“Foi um desafio a parte da tecnologia, mas o fato é que a retomada foi muito mais rápida e surpreendente do que qualquer um poderia imaginar. E estamos vendo uma retomada em V na indústria, principalmente”, contou o executivo. A demanda aquecida por aço que surgiu dos consumidores e das empresas do setor de construção durante a pandemia, além de juros baixos e a tentativa do governo de distribuir renda durante o período de crise, ajudaram nesse resultado.

Mas ainda há muitas incógnitas sobre 2021. “Não sabemos como vai ser o restante do ano. Sou otimista, acho que esse impulso vai continuar dando tração nos próximos meses, mas se não tivermos logo a vacinação podemos voltar a um quadro mais complicado”, ponderou Barcelos, que ressaltou a grande herança deixada pela pandemia aos negócios: a capacidade aprendida de mudar rapidamente.

Mas 2020 não trouxe só a pandemia. Outras novidades que impactarão os negócios em 2021 puderam ser bem observadas no setor financeiro, por exemplo, já nesse ano. O lançamento do PIX e a intensificação dos debates sobre o open-banking – cuja implementação acabou adiada para o ano que vem – chacoalhou o segmento e deve intensificar ainda mais as mudanças de hábito de consumo dos brasileiros.

“Temos um estudo, que é o Future Consumer Index, que a EY realizou com mais de mil e cem consumidores entre maio e junho, e 46% dos entrevistados aumentaram o uso de meios digitais para pagamentos. E mais de 59% passaram a usar ainda mais o banco online”, enumerou Vieira, da EY, que vê nesse movimento também a oportunidade de acelerar a bancarização dos brasileiros. Atualmente 35 milhões de pessoas estão fora do sistema financeiro nacional.

Outro estudo da EY, o Open Banking Opportunity Index, mostra que em torno de 33% das pessoas são otimistas com relação ao sistema bancário aberto, colocando o Brasil na quarta posição de sentimento favorável em um ranking com 12 países. Essa pré-disposição aliada ao movimento acelerado de transformação digital e as mudanças de hábito dos brasileiros deve criar um ambiente favorável para o open-banking e para o fomento de um ecossistema colaborativo de empresas, incluindo fintechs, bancos e outros fornecedores de tecnologia.

 

Infraestrutura e formação: dilemas nacionais

Para os debatedores, se por um lado há um sentimento de otimismo com relação ao movimento acelerado do mercado e a mudança de hábito dos consumidores, por outro há desafios históricos do Brasil. O primeiro deles é a infraestrutura, inclusive levando em conta o papel catalisador do vindouro 5G, mas o país ainda enfrenta imensas dificuldades para conectar todo seu território com a largura de banda necessária.

A EY identificou em outro estudo, que ouviu mais de mil organizações sobre as oportunidades trazidas pela nova geração de redes móveis, que o 5G vai desempenhar papel crítico no desenvolvimento de novas e inovadoras aplicações de negócio, como IoT, por exemplo. Mas há também ansiedade.

“Com a vinda do 5G as organizações vão exigir cada vez mais dos provedores de solução, vai aumentar bastante as expectativas. Em resumo o que hoje conhecemos como práticas que levam ao engajamento do cliente não serão mais suficientes para atingir os propósitos, e os provedores de 5G vão ter que se adaptar em seus fundamentos, estratégias e relacionamentos comerciais para que possam prosperar”, comentou Vieira.

Para Barcelos, da ArcelorMittal, será importante identificar as oportunidades que vão surgir com o 5G. Em plantas fabris, máquinas conectadas em sistemas de IoT coletarão dados e os transmitirão em altíssima velocidade e baixa latência para sistemas analíticos capazes de antecipar manutenções. Grandes caminhões em minas serão dirigidos a distância, reduzindo os riscos a que são expostos os funcionários. Mas implementar redes que de fato tenham essas capacidades é um desafio.

“Temos florestas em que plantamos eucaliptos para fazer carvão e que estão em lugares muito remotos, em que mal há 3G, quanto mais 4G ou 5G. E essa questão da infraestrutura e a velocidade com que ela estará posta a disposição são pontos chave”, disse o executivo. “Os leilões têm que acontecer.”

Por último e não menos importante, Arruda, da FDC, destacou o desafio de capacitar pessoas para atuarem com tecnologias digitais no Brasil. A falta de profissionais qualificados pode chegar a 500 mil nos próximos quatro anos, incluindo desde profissionais programadores até engenheiros e cientistas de dados. São números que atrapalham a competitividade digital brasileira.

“Eu convidaria [os empresários] a olharem em suas empresas quantas pessoas estão sendo requalificadas para incorporarem em seu trabalho atividades digitais? Um pouco de Big Data, Analytics, Internet das Coisas? Veremos que são muito poucas”, disse o professor, que estima que apenas duas em cada dez têm programas de requalificação de funcionários, tanto para soft como para hard skills.

Nas escolas e instituições de ensino o cenário não é muito diferente, segundo Arruda: apesar de as instituições estarem se transformando digitalmente, poucas ensinam os alunos a efetivamente atuarem de forma digital.