26.08.2020 | IT Trends

Pandemia força digitalização e derruba barreiras

Movimento de digitalização dos negócios imposto pela pandemia reduziu receios e deve mudar cultura das organizações. Planejamento e governança podem (e devem) ser retomados

As medidas de isolamento e distanciamento social trazidos pela pandemia aceleraram as ações de digitalização de muitos negócios – seja para o home office e o acesso aos sistemas corporativos ou na criação de produtos digitais. No entanto, com tudo sendo feito às pressas, certas regras, processos de testagem e de amadurecimento foram deixados de lado. Será que ainda é possível retomar o planejamento e tornar esse atropelo mais amigável e humanizado para usuários e equipes de TI?

A resposta é sim, segundo os executivos que participaram da live “Digitalização responsável: ainda dá tempo?”, promovida pelo Movimento Brasil Digital dentro da série Brasil Digital Talks na terça-feira (25). Participaram Tania Cosentino, presidente da Microsoft Brasil, e Rodrigo Galvão, presidente da Oracle no Brasil. Vitor Cavalcanti, diretor executivo do Movimento Brasil Digital, mediou o bate-papo.

O levantamento mais recente feito para o estudo As 100+ Inovadoras no Uso de TI, realizado anualmente pela IT Mídia, descobriu que a aceleração da pandemia antecipou a transformação digital de algumas empresas em até três anos. Mais de 80% dos CIOs ouvidos aceleraram ou refizeram projetos.

Feito com 250 CIOs, o estudo também revelou que 54% deles viram aumentar a demanda por inovação durante a pandemia, o que incluiu também mais orçamento, enquanto 34% tiveram que alterar partes do planejamento. Considerando isso, ainda seria possível colocar essas iniciativas aceleradas de transformação dentro de estratégias mais amplas e cuidadosas?

“Tenho certeza que sim”, respondeu Tania Cosentino. “O que vivemos em cinco meses foi mais do que em cinco anos. Com a COVID-19 não tivemos tempo de pensar.”

Segundo ela, os CIOs tiveram que responder à chegada da pandemia com medidas emergenciais, que foram positivas na medida em que reduziram entraves para seus projetos de transformação – principalmente as culturais. “Não me arrependo da aceleração. Foi bom porque desmistificou a tecnologia”, disse a executiva da Microsoft, que disse ter visto muitos projetos parados nos últimos anos por fatores como cultura, cibersegurança e orçamento.

Passado o primeiro momento de reação, uma nova fase da transformação relativa à crise sanitária começa: a recuperação econômica, que promete acelerar ainda mais as iniciativas digitas. A terceira e última é a reimaginação do futuro, de modo a colocar os seres humanos no centro de qualquer estratégia.

Além de romper as barreiras culturais e de orçamento, Rodrigo Galvão, da Oracle, lembrou outro ponto positivo da transição forçada: mostrou para as empresas, mesmo as pequenas e médias, que o digital também gera receita. Isso é particularmente verdade para aquelas que operavam apenas no mundo físico antes da quarentena, e que de repente viram parte considerável do faturamento vir do mundo digital.

“De uma hora para outra todas as fontes de receita foram reduzidas a quase nada. Quando sairmos de tudo as empresas terão múltiplas fontes de receita. Aquelas que tinham 10, 15% [vindos do] digital, agora terão 30, 40, 50%”, ponderou o executivo. “Nunca é tarde para começar a transformação e vejo pequenas empresas pensando no digital e reformulando seus negócios.”

 

Estar atento e capacitar

Outro levantamento citado e realizado pelo Movimento Brasil Digital em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC), dessa vez para subsidiar um manual de digitalização responsável a ser publicado em breve, questionou os C-levels brasileiros se suas empresas mapeavam tecnologias aderentes aos negócios. Ou seja, se eles “estão de olho e vão conseguir pinçar as que beneficiam suas empresas”, como definiu Vitor Cavalcanti. O resultado impressiona negativamente: a média obtida foi de 2,8 (em uma escala entre 1 e 5).

Outra pergunta do estudo buscou saber se as empresas oferecem capacitação para os colaboradores que ainda não estão preparados para a transformação digital dos negócios. A média foi ainda pior: 1,6.

Para Tania Cosentino, esses resultados demonstram que é preciso simplificar o “tecniquês” falado nas empresas quando o assunto é TI. Se mesmo em fabricantes como a Microsoft, que lançam novos produtos com alta periodicidade, é difícil manter a todos atualizados, “imagina nos nossos clientes em que tecnologia não é core. Por isso digo que é importante primeiro saber que problema precisa ser resolvido, e os experts que pensem na tecnologia mais adequada”, ponderou.

A executiva também mencionou um estudo global encomendado pela Microsoft e que revelou uma diminuição gradativa de investimentos em capacitação por parte das empresas desde 2008, principalmente quando uma crise econômica desponta e elas optam por enxugar custos. “Cortar em capacitação é cortar no lugar errado”, ponderou Tania, que apontou dois problemas nos cortes: primeiro ao limitar o desenvolvimento dos profissionais e segundo ao gerar as competências necessárias aos negócios do futuro.

Rodrigo Galvão lembrou que a preparação de profissionais para um futuro digital ultrapassa a responsabilidade das empresas e dos indivíduos, embora obviamente não os exclua, e alcança também uma escala de nação – desse desafio aliás é que surgem movimentos como o Movimento Brasil Digital. Ou seja, não se trata só de recapacitar profissionais cujas funções serão drasticamente alteradas, mas também não deixar para trás aqueles que não tiveram oportunidades.

“Vemos todas as empresas grandes juntas pensando no futuro do país. A responsabilidade do executivo, além de fazer nossos clientes crescerem, é aprender com o momento atual”, disse o presidente da Oracle do Brasil.

O debate completo sobre digitalização responsável já está disponível no canal do Movimento Brasil Digital no YouTube. Assista: